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Quer saber como tornar seu filho mais inteligente? A receita é a leitura

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Os primeiros anos da vida de uma criança são fundamentais para seu desenvolvimento. É nesse período que a formação de conexões cerebrais é mais propícia. E um dos principais estímulos que pais e cuidadores podem oferecer à criança desde a gestação até os 6 anos é a leitura. Ela é tão importante, que se tornou recomendação médica no Brasil e no exterior.

Para incentivar os pediatras a alertarem as mães nesse cuidado, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em parceria com a Fundação Itaú Social e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, divulga constantemente a campanha “Receite Um Livro”, como forma de promover o desenvolvimento infantil integral da criança. Confira os benefícios que o hábito da leitura promove com a neuropediatra Liubiana Arantes Araújo, presidente do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A mãe deve ler para o bebê desde a gestação?
Sim, e deve ser continuada ao longo da vida da criança. Não basta ler, é preciso se conectar, estar envolvida com afeto, carinho e troca de olhar. Fazer uma entonação diferente, conforme lê, e mostrar que a leitura é uma atividade prazerosa. Com isso, a mãe contribui para uma arquitetura cerebral sólida do bebê. Quanto mais ele receber o estímulo da leitura, mais o cérebro vai se desenvolver.

E até os dois anos é a fase mais propícia para melhorar o desempenho da criança no futuro.

Sim, os primeiros anos de vida é quando o cérebro da criança mais se desenvolve e possui abertas muitas das janelas de oportunidade, ou seja, períodos mais adequados para estimular uma função. Se os pais lerem para os seus filhos, a criança vai ter um aproveitamento excelente das funções cerebrais, das sinapses, das redes neuronais, ou seja, do amadurecimento desse cérebro. E quanto mais precoce for o estímulo, mais verdadeira é essa afirmativa.

De que forma a criança recebe isso ainda dentro do útero?
A criança recebe os efeitos do ambiente externo o tempo todo. Ao ler, a grávida está envolvida com o bebê e vai secretando endorfina e substâncias de prazer no organismo dela que vão afetar o feto de forma positiva. Ele não entende palavras, lógico, mas pode perceber a cadência, os estímulos sonoros e o afeto, que vai ficar embutido na memória para o resto da vida.

O objetivo da campanha da leitura é promover o desenvolvimento infantil integral. O que isso significa?
A neurociência vem desvendando o cérebro humano e demonstrando particularidades do cérebro da criança desde a vida intrauterina. O bebê não necessita só de cuidados, precisa de um desenvolvimento global, que inclui habilidades cognitivas, motoras e sociais, para que ele venha a ser um adulto bem sucedido. Hoje, sabemos que o resultado de um ser humano é 50% genética e 50% ambiente. Então a epigenética (influência do meio na genética) vem sendo muito estudada e nos mostra que algumas atitudes simples, como a leitura, podem ter um impacto muito grande, tanto em nível individual, quanto coletivo e, inclusive, para o desenvolvimento do país.

Que funções são estimuladas?
Na hora da leitura, os pais ativam a função visual, auditiva, o tato, a atenção, a questão da compreensão das palavras, a forma de expressar, o senso de direção – da esquerda para a direita –, a identificação de figuras, a posição corporal, o olhar para a família, a troca de afeto e o sorriso. Além disso, tem a interpretação de diferentes emoções, como felicidade, dúvida, alegria, etc. Tudo isso o bebê vai precisar para se desenvolver, ser alfabetizado, entrar em uma faculdade, conseguir um emprego, ingressar em um relacionamento. Em outras palavras, ser feliz.

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De forma prática, como deve ser essa leitura?
O importante é que seja um momento de prazer. O local deve ser tranquilo, como embaixo de uma árvore, em uma praça ou no quarto, na hora de dormir. A criança precisa estar disposta, alimentada e tranquila, e sem distrações ou estímulos, como a TV. É possível pegar o bebê no colo ou ler de frente para ele no chão. É interessante passar o dedo – da esquerda para a direita – mostrando as figuras e colocando a mãozinha dela para perceber a parte tátil do livro. Ao mesmo tempo, os pais devem olhar nos olhos, sorrir, mudar a entonação da voz: usar a forma exclamativa, depois um suspense e linguagem gestual, dependendo da história. O importante é ter afeto, carinho e envolvimento, porque o cérebro aprende com prazer.

Tem livros infantis que são muito caros. Qual seria a alternativa?
O importante é a família buscar algo que corresponda ao orçamento, não precisa gastar dinheiro com livros caros. Existem fundações que distribuem livros gratuitamente, tem os empréstimos em bibliotecas e escolas e até bibliotecas itinerantes em ônibus e bicicleta. Outra opção é fazer um rodízio de livros entre famílias amigas. Ou ainda a mãe pode pegar o mesmo livro e inventar uma outra história ou recortar revistas e fazer uma colagem em um caderno. Já o conteúdo deve incentivar pensamentos bons, positivos, atitudes que vão moldar o caráter da criança.

Tem uma campanha americana que diz: ‘ler para uma criança representa os vinte minutos mais importantes do seu dia’. Qual seria o tempo recomendado?
Depende da faixa etária, pois essa recomendação vale para crianças maiores. O bebê vai ficar entretido por cerca de cinco a dez minutos. A medida que vai se interessando mais, aumenta-se o tempo. Se ele ficar disperso e cansado depois da leitura, a orientação é mudar de atividade. Essa recomendação americana é só para mostrar aos pais que não é preciso muito tempo do dia para algo tão importante, como o futuro da criança.

Exatamente isso é o que mostra uma pesquisa americana com crianças de 0 a 5 anos. Segundo o estudo, cada ano de uma criança, ouvindo historinhas e folheando livros, equivale a 50 mil dólares a mais na sua futura renda.
Atualmente a medicina trabalha muito em conjunto com a questão econômica. No Brasil, mesmo em tempos de crise, podem ser desenvolvidas estratégias simples e baratas, mas que, a longo prazo, vão ter um grande impacto no índice socioeconômico do país. A leitura na infância é uma dessas preciosidades. Com a campanha da SBP junto aos pediatras, a mídia, as mães e a escolas demostrando que a leitura é um hábito a ser adotado, estamos plantando uma sementinha para que a criança seja um adulto bem–sucedido globalmente, independente, saudável, ou seja, com menor impacto no sistema público de saúde e uma força de trabalho mais qualificada. Isso tem uma repercussão grande em termos de desenvolvimento socioeconômico de um país. O hábito da leitura é algo em que a sociedade deve investir.

Assista também o vídeo com a entrevista da neuropediatra:


Fonte: Liubiana Arantes Araújo, neuropediatra, presidente do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De 2004 a 2013 atuou como médico da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, na área de neurologia infantil e desenvolvendo projetos na área de pesquisa clínico-epidemiológica em Neurologia e reabilitação infantil. Possui projeto de pesquisa em desenvolvimento junto à Harvard Medical School na área de neuromodulação em Neuropediatria. (CRM 36278)

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