PAGE-TYPE=single

Descubra qual é a posição correta para a grávida dormir

Além da dificuldade em encontrar uma posição confortável, as grávidas têm mais propensão a sofrer com roncos, segundo uma pesquisa da Unifesp
0 Comentários

A qualidade do sono pode cair de 8 horas para 4 horas até o fim da gravidez, segundo a pesquisadora norte-americana Michele Okun, especialista nos distúrbios do sono da mulher e professora da Universidade de Pittsburgh (EUA). Além da dificuldade em encontrar uma posição confortável, as grávidas têm mais propensão a sofrer com roncos e, segundo uma pesquisa inédita da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o problema afeta especialmente aquelas com pressão arterial alta. Para a mulher dormir melhor ao longo dos nove meses, conversamos com a ginecologista Helena Hachul de Campos, professora de Medicina e Biologia do Sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Coordenadora do Setor Sono na Mulher na Unifesp.

Segundo pesquisas, a qualidade do sono cai na gravidez. Como isso se dá ao longo dos nove meses?

Na gestação, o sono acompanha a evolução dos trimestres. Com o aumento dos hormônios no corpo, a mulher sofre com sonolência nos primeiros meses. Outras têm insônia, mesmo no início, porque estão ansiosas ou com tendência a depressão. Em geral, a qualidade do sono melhora no segundo trimestre, quando os enjoos não atrapalham mais. No terceiro trimestre, por conta do aumento no volume abdominal, a mulher fica com a respiração curta, pois não consegue expandir muito o pulmão. A bexiga também fica comprimida, exigindo idas frequentes ao banheiro durante a madrugada. Soma-se a isso, a dificuldade em achar uma posição para dormir, câimbras e dores nas costas. Sem contar a ansiedade pelo parto e o novo papel de mãe. Todos esses fatores levam a um sono fragmentado e a queda na sua eficiência. A maioria das pessoa aproveita 85% do tempo do sono, mas na gestação essa porcentagem cai e muito.

Nessa mesma pesquisa, o ronco aparece como um problema frequente, principalmente no terceiro trimestre. É quando o ronco piora?

Isso mesmo. Inclusive a mulher que nunca roncou na vida, pode sofrer o problema na gestação. O quadro é mais preocupante quando o ronco está associado ao aumento da pressão arterial, como constatou uma pesquisa do Ambulatório de Hipertensão na Gestação da Unifesp em parceria com a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Em uma pesquisa americana de 2008, foi apurado que, entre as pacientes com problemas perinatais, mais de 40% roncava na gestação. Quem ronca pode ter apneia (obstrução das vias aéreas superiores) e hipóxia, ou seja, a diminuição da oxigenação placentária, podendo levar a um retardo de crescimento uterino e outras complicações neonatais. A partir desse dado, selecionamos as pacientes com pressão alta, que se submeteram a testes de polissonografia (exame utilizado para diagnosticar distúrbios do sono). Resultado: 100% delas roncavam e tinham apneia, que é a parada respiratória.

Isso só pode ser comprovado em exames?

Sim, a grávida com apneia percebe o despertar no meio da noite e o cansaço no dia seguinte, mas pode não notar que ficou sem ar. A consequência mais grave é trazer problemas de saúde ao bebê. Já, para a grávida, os efeitos são físicos e emocionais: imunidade baixa e sujeita a doenças, cansaço, irritação, memória fraca e sono não reparador.

E qual seria o tratamento?

No estudo realizado no ambulatório da Unifesp, metade das pacientes usaram o CPAP (Continuum Positive Air Pressure) como tratamento. Trata-se de uma máscara ligada a um tubo que ejeta uma pressão positiva para abrir a via aérea. Dessa forma, as pacientes não sofreram mais com apneia, conseguiram baixar a pressão arterial e tiveram desfechos neonatais melhores que o outro grupo. Antes desse estudo, os médicos só interferiam no sono da grávida depois do parto. Agora, a pesquisa abriu uma nova guia de investigação. Vão ser feitos novos estudos e, em breve, as grávidas com pressão arterial poderão usar esse tratamento para melhorar o prognóstico do bebê. Isso é recente, estamos divulgando e passando o conhecimento aos médicos.

Então, no pré-natal, a grávida com hipertensão e sem sono reparador pode pedir para fazer uma polissonografia?

Até pode, mais isso é muito recente e não é um procedimento padrão dos médicos. O que sabemos é o que os estudos são promissores e não há contraindicação para o tratamento. O aparelho melhora a respiração e não tem efeito colateral.

A grávida que sofre com inchaço, tem grandes chances de roncar?

Não é uma relação tão direta. A mulher pode reter muito liquido, ficar com os pés inchados, mas não sofrer com roncos. Roncou? Tome bastante liquido, investigue se há uma obstrução nasal, que faz a boca ficar aberta e, consequentemente, provocar o ronco. Eliminado o problema no nariz, o médico vai medir a pressão nas consultas de rotina e investigar as causas do problema.

A grávida pode sofrer com ronco, mesmo sem ter problemas com pressão arterial?

Sim, toda grávida está mais propensa a roncar, porque há um edema em todas as partes do corpo, inclusive das vias aéreas. Quando aprofundamos o sono, há um relaxamento maior da via aérea superior. O edema, causado pela modificação fisiológica da grávida, propicia mais facilmente a obstrução. Detalhe, nem todo mundo que ronca sofre de apneia. Para o diagnóstico, precisa fazer uma avaliação médica e complementar com o exame de polissonografia.

E se for um ronco simples, como a grávida pode melhorar o sono?

Manter-se hidratada ao longo do dia para evitar inchaços, colocar diariamente soro fisiológico, a fim de hidratar as narinas, além de dormir de lado, já que a posição de barriga para cima propicia mais roncos.

Dormir é essencial para todo mundo, mas na gravidez isso se amplia?

Com certeza. O desgaste da formação do bebê é grande, por isso toda grávida necessita mais de sono do que a população em geral. Se tiver vontade de dormir mais, pode ficar mais um pouquinho na cama. A indicação é incluir um cochilo de uma hora no meio do dia e não passar muito disso, para não interferir na qualidade do sono noturno. Nem toda grávida consegue esse luxo por conta do trabalho. Nesse caso, a recomendação é arranjar um lugar para ficar com os pés para cima no intervalo do almoço, a fim de evitar o inchaço e relaxar um pouco.

E qual seria a quantidade de horas recomendada?

Isso é muito particular. Em geral, a população dorme em média de sete a oito horas. Tem os dormidores curtos, que com quatro ou cinco horas já estão bem para o dia seguinte. Já outros precisam de onze horas. A recomendação é seguir o padrão de qualidade anterior à gestação, sempre acrescentando o cochilo, se possível.

E qual a posição mais indicada para dormir?

A melhor posição é a virada do lado esquerdo, porque assim fica mais fácil a oxigenação, não há compressão da veia cava e, de preferência, colocar um travesseiro entre as pernas. É claro que a mulher não consegue manter a posição a noite inteira, mas ao acordar, deve voltar à posição. Aquelas mulheres que engordaram muito, cerca de 20 quilos, têm muita dificuldade em encontrar uma posição confortável. A dica é recorrer a travesseiros e ir se ajeitando. Há casos em que a mulher só consegue dormir praticamente sentada no finalzinho da gestação.

Quais são as dicas gerais para um sono melhor?

Manter um quarto silencioso, bem arejado e escuro. Não é indicado ter TV ou levar aparelhos eletrônicos para a cama, pois atrapalham a liberação de melatonina, hormônio que induz ao sono. Usar roupas confortáveis de algodão, sem detalhes, como renda, que podem pinicar a pele. Não fazer refeições pesadas e evitar exercício físico à noite. Em caso de insônia, levantar e voltar para a cama quando tiver sono. Aproveite para tomar um leitinho morno, rico em triptofano, aminoácido que modula a produção de serotonina, neurotransmissor que dá a sensação de relaxamento.

Assista aos vídeos da entrevista: [/fusion_text]


Fonte: Helena Hachul, graduada em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Doutorado em Medicina (Ginecologia) pela Universidade Federal de São Paulo. Fez Pós-doutorado no Departamento de Psicobiologia – Medicina e Biologia do Sono na Unifesp. Atualmente é Orientadora e Professora Afiliada na Unifesp. É chefe do Setor Sono na Mulher (parceria entre os Departamentos de Ginecologia e Psicobiologia), que tem como objetivo o atendimento multidisciplinar da mulher com problemas de sono, alicerçado no tripé assistência, ensino e pesquisa. Também é membro da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de SP e da Associação Brasileira de Sono. (CRM 82724)

Deixe o seu comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *