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O drama de uma mãe que perdeu o filho no sétimo mês de gestação

Saiba como amenizar a dor da perda gestacional, que traz sentimentos de tristeza, frustração e até culpa
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“Percebi que o médico estava me interrogando de forma diferenciada e havia retirado rapidamente a imagem do ultrassom na tela. Logo tive a certeza de que tinha algo de errado, mas não imaginava ser o falecimento do meu filho. O chão parecia se abrir, como num buraco profundo, e custei a acreditar, pedi para repetir o exame. Até que percebi que era real.”

O relato é de Patricia Bellas, farmacêutica de 31 anos, que perdeu seu filho, Bento, durante o sétimo mês de gestação. Na tentativa de amenizar a dor, ela publicou nove meses depois o livro Ele se foi, e agora? – Como superar a perda gestacional (Editora Novo Século). Afinal, poucas experiências podem ser tão dolorosas para uma mãe do que perder um filho, mesmo que ele não tenha chegado a, de fato, nascer.

Às vezes, a gravidez pode não evoluir bem por diversas razões, ligadas ao organismo da mulher ou até mesmo ao espermatozoide do pai, mas geralmente são difíceis de serem prevenidas.

Não há números oficiais, mas estima-se que entre 15% e 20% das gestantes sofram abortos espontâneos até a 20ª semana de gestação, e esse número só não é ainda maior porque muitos abortos acontecem antes da mulher sequer se dar conta do fato.

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Também há os casos dos bebês natimortos, isto é, os que morrem após a 20ª semana – como aconteceu com o bebê de Patrícia – e até mesmo durante ou logo após o parto. Os índices do Brasil são de 8,6 natimortos a cada 1.000 nascimentos, segundo um estudo britânico.

A perda do bebê durante a gestação costumar trazer muita dor às mulheres, abalando suas expectativas e trazendo uma grande variedade de sentimentos simultâneos.

Reação

“O luto é sempre uma experiência única, ou seja, cada pessoa tem uma reação diferente. Os sentimentos frequentes são a dor, a incredulidade e a frustração”, comenta a psicoterapeuta e professora titular da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELu).

Esses sentimentos podem se tornar ainda mais intensos quando as pessoas próximas à mulher não reconhecem a perda do bebê como um acontecimento de relevância – situação mais comum do que parece –, como se o fato de a mulher nem mesmo ter conhecido o seu filho tornasse a perda menos dolorosa, o que não é verdade.

Sendo desejada ou não, a gravidez traz diversas expectativas que são inevitavelmente frustradas com a perda do bebê, mesmo que a mulher possa engravidar novamente, pois um filho não pode ser substituído por outro e o vazio não se preenche tão facilmente.

Falta de compaixão

“Perdas como abortos espontâneos são menos reconhecidas e apoiadas pelas outras pessoas, pois acredita-se que a mulher não tem o direito de enlutar-se. Ela sofre em silêncio, não sabe a verdadeira causa de suas reações e recebe pouco apoio ou reconhecimento de sua dor”, afirma a psiquiatra Tânia Alves, especialista em luto e pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-HCFMUSP).

Não há uma maneira certa de reagir após a interrupção de uma gravidez. Os sentimentos ligados à perda podem ir e voltar com diferentes intensidades durante as primeiras semanas. O sentimento de culpa é natural e pode surpreender a mulher, fazendo-a imaginar que ela não era merecedora de ter um filho ou que foi responsável pela sua morte.

Tentar entender esses sentimentos e dividi-los com alguém é o ideal, ao invés de simplesmente reprimi-los ou ignorá-los. Uma conversa com o obstetra sobre o que realmente impediu a progressão da gravidez pode contribuir para evitar julgamentos. “Conseguir achar o limite do poder também liberta de uma culpa inexistente”, acrescenta a psiquiatra Tânia.

Esse sentimento de culpa surge, de maneira inconsciente, da dificuldade em admitir que muitas questões fogem do nosso controle e são inevitáveis, até mesmo as mais importantes, como a saúde e a segurança dos filhos.

“Entender esse sentimento é importante, sim, pois significa apenas que ela está expressando sua frustração pela incapacidade natural e compreensível de evitar a perda do filho”, ressalta a psicoterapeuta Maria Helena.

Apoio na rotina

Voltar ao trabalho e retomar a rotina normal é a forma que muitas mulheres encontram para superar a dor e se desvencilhar dos sentimentos trazidos pela perda. Apesar da prática funcionar para algumas mulheres, é importante não usar o trabalho como uma válvula de escape, forçando assim um fim precoce do luto, sem se dar o tempo necessário para processar tudo o que aconteceu.

“Para algumas pessoas, se afastar do trabalho pode ser útil; para outras, continuar com sua atividade pode ser organizador e até terapêutico”, diz a psicoterapeuta Maria Helena.

O apoio de um especialista pode ser fundamental nesses momentos. “O ideal é procurar ajuda profissional. Uma avaliação médica e psicológica pode ser de grande valia”, indica a psiquiatra Tânia Alves.

Suporte dos parentes e do parceiro, que também sofrem

Em qualquer perda familiar, o apoio dos parentes e das pessoas próximas é fundamental, mas também é necessário entender que muitas pessoas têm dificuldade em se aproximar de alguém que acabou de sofrer uma perda tão importante. Afinal, luto e morte, apesar de fazerem parte da vida de todos nós, ainda são assuntos considerados tabus pela sociedade, e às vezes as pessoas preferem respeitar o espaço da mulher por não saberem como se aproximar.

“Estar atento, afetivamente próximo e disposto a ouvir sem julgar; estas são as melhores maneiras de ajudar”, aconselha Maria Helena.

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Já quando se trata do parceiro, é comum que a mulher espere que o pai do bebê reaja à perda da mesma maneira que ela, o que nem sempre acontece. Novamente, cada pessoa tem seu próprio jeito de reagir ao luto, e um comportamento comum dos homens nesses momentos é evitar ao máximo deixar transparecer seus sentimentos, mantendo, assim, aquela imagem de homem durão, às vezes até com a intenção de passar mais segurança à parceira.

A mulher, então, pode imaginar que seu parceiro não liga para a perda e é insensível quanto ao luto e suas dores. O ideal é que ambos conversem e exponham seus sentimentos um ao outro. Com compreensão, as expectativas são alinhadas e ambos têm a chance de vivenciar o luto de maneira saudável.

“Em geral, homens e mulheres têm formas diferentes de expressar a dor. Socialmente, as mulheres são mais autorizadas a externar seus sentimentos. Já os homens muitas vezes guardam para si, ou mantêm seus sentimentos mais escondidos”, explica a psicóloga Joana Osternack, do Ambulatório de Luto do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo -USP (IPq- HCFMUSP).

“O meu marido parecia em choque e tentava não chorar. Irritava-se em me ver em lágrimas, como se a forma dele lidar fosse ignorando o que tinha acontecido, e como se meu sofrimento acabasse fazendo-o lembrar de que aquela situação era real. Até que insisti em dizer que não permitiria tabus em nossa casa e só então ele se permitiu a vivenciar o luto”, conta Patricia Bellas.

Amigos e parentes também devem evitar comentários que, por mais que não sejam de má intenção, não ajudam nem um pouco e podem, inclusive, trazer mais tristeza. São aquelas frases-clichê como ‘logo mais você engravida de novo’ ou perguntar se a mulher não teria feito algo errado durante o pré-natal.
“Filhos não são descartáveis, tampouco substituíveis, e muitos pais deveriam saber disso antes de dizer uma frase cruel como essa”, desabafa Patricia.

Nova tentativa

Muitas mulheres ficam bastante ansiosas para engravidarem novamente, mas saiba que não há um período emocionalmente adequado para fazer uma nova tentativa.

Do ponto de vista médico, o obstetra pode indicar um tempo de espera, que varia de acordo com os motivos que levaram ao aborto espontâneo ou à morte do feto.

Saber lidar com a ansiedade é importante, pois o prazo de espera recomendado pelos médicos existe para garantir que a próxima gestação se inicie com o máximo de saúde possível. Além disso, a espera pode ser boa para a mulher conseguir processar a perda do bebê antes de engravidar novamente.

No caso de teste positivo, é normal sentir medo e receio de perder outro bebê. “A ansiedade da mulher nesta situação pode ser acolhida e enfrentada com informações objetivas e acolhimento afetivo, tanto por parte da equipe que a assiste como de toda a família”, pondera a psicoterapeuta Maria Helena.

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Fontes:
Maria Helena Pereira Franco, psicoterapeuta e professora titular da PUC-SP, onde coordena o Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELu) (CRP/SP 1690)

Tânia Alves, especialista em luto e pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-HCFMUSP) (CRM/SP 76182)

Joana Osternack, psicóloga do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq- HCFMUSP) – Ambulatório de Luto (CRP/SP 112845)

Patricia Bellas, autora do livro Ele se foi, e agora? – Como superar a perda gestacional (Editora Novo Século)

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