Ser mãe é a tarefa mais difícil do mundo e a mais prazerosa. Cuidar de um ser pequenino e frágil e ajudá-lo a se tornar um adulto feliz e um cidadão é uma grande responsabilidade. Só que a tarefa fica ainda mais difícil quando as mulheres assumem e carregam todo este peso em suas costas e buscam se espelhar em mães tão perfeitas quanto irreais. Portanto, o melhor é não perder tempo com demandas desnecessárias ou injustas e, sim, focar nessa bela jornada e ser uma mãe rela, de carne, ossos…e sentimentos. Para você refletir sobre o seu papel de mãe, entrevistamos Melinda Blau, jornalista e coautora norte-americana da trilogia best-seller americano “A Encantadora de Bebês” (Editora Manole), traduzido em 20 línguas.

Na sua opinião, qual é o maior desafio em relação à maternidade nos dias de hoje?

Nos últimos dez anos, a noção de “maternidade” tornou-se muito limitante. O maior desafio é a mulher não perder a própria identidade ao se tornar mãe. Portanto, os cuidados não devem ser voltados somente ao bebê, é necessário cuidar de si própria. Também é preciso cuidar da relação marido e mulher e arranjar tempo para os amigos, assim como cultivar interesses próprios. A culpa e o sacrifício exagerado das mães não são apenas danosos para as mulheres e as crianças também são prejudicadas, já que a mulher não será um ser humano saudável fisicamente e psicologicamente capaz de cuidar de uma criança.

É por isso que você chama a atenção para o risco de focar em demasia a atenção apenas no filho?

Isso mesmo, as mães devem ampliar a visão! Cada família é única e três fatores se combinam para tornar cada núcleo diferente: os indivíduos (os adultos e as crianças na família), suas relações entre si e o contexto da família – seu bairro, país, classe e todos os outros fatores externos. Se o pai fica desempregado, por exemplo, isso vai afetar os relacionamentos familiares. Se a mãe fica doente, a mesma coisa. Portanto, quando a mãe se concentra apenas na relação mãe-filho, ela perde algo maior, dando menos atenção à família. Todos os indivíduos na família e seus relacionamentos são importantes e todos precisam ser nutridos. Quando a mãe é completamente centrada na criança, o núcleo familiar fica enfraquecido.

A felicidade do filho é o desejo de toda mãe. Qual é o peso da família em relação a isso?

Família é um porto seguro, é o local onde você pode voltar para casa e se sentir à vontade. Os pais conhecem seus filhos como ninguém e vice-versa, por isso estão intimamente ligados. Para o filho, os pais são a sua história. A criança que tem um forte sentimento de ligação com a família se sente segura e apoiada. E o mais importante, assim criança não aprende a pensar que o mundo gira em torno dela. Na família se aprende a ser parte de uma unidade, ter objetivos comuns, cooperar e colaborar.

Um dos grandes problemas da maternidade hoje em dia é a busca da perfeição. Como se livrar disso?

Como uma mãe pode ser perfeita se duas pessoas não são iguais no mundo? Não há maneira “certa” de criar os filhos. O bebê e a criança têm pensamentos e sentimentos e um destino próprio. Os filhos também não serão perfeitos, muito menos a mãe, que tem uma responsabilidade tão grande nas mãos. O melhor a fazer é a mulher cuidar de si mesma, ouvir seus filhos com atenção e manter um relacionamento respeitoso.

Essa busca pela perfeição leva à culpa, algo muito presente nas mães brasileiras. Afinal, como se livrar dela?

As mães devem lutar contra esse sentimento diariamente. Conversar e trocar experiências com outras mulheres faz a mãe perceber que todo mundo passa pelas mesmas dificuldades. Outra atitude a adotar é não deixar cair na armadilha da publicidade, que mostra mãe e filhos sorridentes. Não tentem ser um mãe de comercial, porque aquela imagem não é real.

No livro, você menciona que uma mãe raivosa polui todo o ambiente da casa. Como não chegar nesse sentimento com tantas demandas?

Ao entrevistar muitas mulheres durante a minha carreira, percebi que a raiva se instala, quando elas cuidam demasiadamente dos outros e abandonam suas próprias necessidades. Elas tentam fazer felizes todos ao seu redor e se esquecem delas mesmas. Aí, os ressentimentos se acumulam e, finalmente, explodem. E a mãe com raiva acaba machucando sem querer seus filhos e todos os outros na casa. As mães devem seguir a orientação dado nos aviões. ‘pegue o oxigênio primeiro, depois, coloque a máscara na criança’. Se você não consegue respirar, você não pode ajudar seu filho. Cuide de si mesmo antes de ficar com raiva.

Ou seja, se a mãe não está feliz, ninguém está feliz.

Com certeza. Já estive no Brasil e percebi que a mãe é a figura central – o coração e a mente da família. Em 2014, quando estive numa universidade carioca perguntei ao público quem era o membro mais importante da família? A mãe foi citada por quase metade do público (47%). Só 13% responderam ser o pai; e 6% classificaram ambos os pais como igualmente importantes. Mesmo a mãe trabalhando em tempo integral, todos dependem dela na família.

No Brasil, há um ditado muito conhecido: ‘Ser mãe é padecer no paraíso’. Uma conotação negativa em que a mulher está sempre em sofrimento físico e moral apesar de toda felicidade em ter uma criança. O que você diria para as mulheres que pensam dessa maneira?

Toda mãe deve lembrar que ela é um modelo para o filho. As crianças aprendem pelo exemplo e, portanto, o que você faz e como age, mais do que o que você diz, vai ensinar a eles como pensar e agir. Você quer que eles sejam adultos que também sacrifiquem suas necessidades? Se você está fazendo sempre algo para os seus filhos, eles nunca vão aprender a completar tarefas, resolver problemas ou lidar com decepção e frustração por conta própria. Cotidianamente vejo jovens na universidade que ainda pedem ajuda às mães para cumprir tarefas banais. Você deseja isso para o seu filho? Pense e reavalie constantemente seu papel de mãe.


Fonte: Melinda Blau é jornalista e coautora da trilogia best seller “A Encantadora de Bebês” (Editora Manole). Seus livros, escritos em conjunto com a enfermeira inglesa Tracy Hogg (1960 -2004), já foram traduzidos para vinte línguas. Assina colunas sobre o mundo materno para diversos jornais americanos. Seu mais recente livro é “A Encantadora de Famílias” (Editora Manole).

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