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Mãe perfeita não existe! Livre-se desse rótulo

Pressão e julgamento da sociedade ainda levam as mulheres a perseguirem a ilusão de ter um jeito certo de exercer a maternidade
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O ditado ‘mães são todas iguais, só mudam de endereço’ tem um fundo de verdade, mas sabemos que a maternidade é muito mais complexa do que isso, não é mesmo?  De fato, todas as mães têm a preocupação constante pelo bem-estar de seus filhos, mas as semelhanças param por aí.

Fatores como personalidade, história de vida e contexto social e econômico influenciam diretamente no jeito de ser mãe e de criar os filhos. Mas não existe a fórmula da mãe perfeita e a busca excessiva por orientação nos manuais pode deixar alguma mães ainda mais angustiadas. Entretanto, a busca pela maternidade perfeita ainda é recorrente entre as mulheres, levando muitas a se sentirem frustradas ao se perceberem distantes desse ideal ilusório.

“Somos todos imperfeitos. Por que seria diferente com as mães? Podemos continuamente buscar melhorias na nossa forma de maternar, mas procurar a perfeição é uma corrida em que não há vitoriosos”, afirma a psicóloga perinatal Bianca Amorim, idealizadora do projeto ‘Renascendo após a maternidade’.

Apesar dessa quase obrigação de não se dar ao luxo de falhar, a maternidade “perfeita” acaba sendo bastante reforçada pela pressão exercida da “patrulha da sociedade”.

O julgamento e os palpites infelizmente fazem parte do cotidiano de todas as mães, seja por parte de parentes, amigos, desconhecidos e até de outras mulheres, que acreditam que o seu jeito de ser mãe é o único possível e correto.

“As mulheres não precisam carregar um fardo tão pesado como esse. Uma rede de apoio efetiva que dá suporte e não julga é um início para a diminuição da culpa”, afirma a psicóloga Damiana Angrimani, educadora perinatal com atendimento focado em gestantes e mães.

A administradora Marina Kovac, de 30 anos, mãe do pequeno Theo, de 4 meses, conta que sentiu na pele o peso dos julgamentos antes mesmo de se tornar mãe.  

Mãe perfeita
Marina e seu bebê Theo/Arquivo pessoal

“Meu parto foi em casa e não dividi essa decisão com ninguém, porque se contasse para minha família, seria um problemão. Ouviria muitos palpites e julgamentos. Em geral, as pessoas acham que podem opinar a qualquer hora e isso atrapalha demais. A gente acaba se isolando para se blindar de comentários, mas ao mesmo tempo é prejudicial, já que a gravidez envolve emoções conflitantes, questionamentos e dúvidas, que precisam ser divididos. Muita coisa passa pela cabeça”, desabafa Marina, que fez terapia desde a gestação do filho Theo, como forma de lidar com tantas questões.

Culpa

O resultado de tanta cobrança – seja da própria mãe ou das pessoas ao seu redor – culmina em um sentimento de culpa. A mãe sempre pensa que poderia estar fazendo algo a mais ou melhor para os seus filhos, não importa o quanto já tenha se esforçado.

A culpa vem naqueles momentos em que a mãe tem vontade de sair com o parceiro à noite, quando perde a paciência com o choro do bebê ou no momento em que ele faz algum comportamento inapropriado e ela conclui que está errando em algo na criação.

+ “Nasce a mãe, nasce a culpa, mas este sentimento não deveria estar presente no dia a dia da maternidade”

A bancária Camila Guimarães, 35 anos, mãe de Vicente, de apenas três meses, conta que desde o nascimento do seu filho o sentimento de culpa tem sido comum em sua rotina.

“Quando meu filho completou três meses, imaginei que iria voltar a cuidar de mim, retornar à academia, entre outros desejos e pendências. Mas estou há quase um mês nessas tentativas e ainda não consegui, porque fico com dó de deixá-lo com alguém.  Por outro lado, fico nesse conflito de não cuidar da minha vida e viver só em função do bebê”, conta a mãe.

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Cuidados

Apesar desse sentimento ser natural e querer fazer o melhor para o filho, é preciso cuidado para não cair num quadro de ansiedade constante. “Há culpas geradas pelos comentários de terceiros e há outras, cultivadas internamente, do modo como lidamos com as emoções. Independente da origem, se agarrar a essa culpa e ficar sofrendo com a situação, não resolve nada. Por isso, é preciso refletir, ver se faz sentido alimentar este sentimento. Em grande parte das vezes, a mulher está exigindo demais de si mesma. E se a culpa fizer sentido, é só mudar a atitude em uma nova oportunidade”, recomenda a psicóloga perinatal Bianca Amorim.

Você não é perfeita… e tudo bem!

Saber e aceitar que você não é nem precisa ser a mãe do ano pode ser libertador. Além de conseguir ter mais tempo para si e não julgar o comportamento de outras mães, a mulher se permite errar e se cobrar menos. Rir das falhas e trazer mais leveza para o dia a dia deveria ser o objetivo de toda mãe que caiu na cilada da perfeição.   

“Às vezes, a perfeição está em coisas que não fazem sentido nenhum para a mulher, mas ela acaba fazendo para não ser vista como uma ‘mãe ruim’. Tendo consciência da imperfeição, a mulher vive o que é possível. E, pode confiar, a sensação é incrível e só contribui para uma maternidade mais feliz e prazerosa”, aconselha a psicóloga Damiana Angrimani.

Trabalho

O fim da licença-maternidade é um divisor de águas na vida de todas as mães e, mesmo que ela não tenha dúvidas sobre o assunto, a temida culpa pode aparecer, qualquer que seja a decisão.

Existem muitos cenários possíveis, e apenas a própria mulher é quem sabe o que é melhor para o bebê e para ela. O importante é sempre pesar todas os prós e contras e tentar tomar uma decisão consciente.

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Além disso, nessas horas é preciso lembrar que as responsabilidades da criação dos filhos não é exclusividade da mãe, apesar dessa concepção ainda existir na nossa cultura.

“A culpa pelo trabalho acontece por uma visão equivocada de que a criança precisa necessariamente ficar com a mãe 100% do tempo. Não há dúvidas de que quanto mais os pais conviverem com a criança, melhor será o vínculo e o ambiente familiar, mas isso não significa que a mãe seja a única capaz de cuidar da criança e ou que ela precisa estar presente 24 horas por dia. No mundo ideal, o pai e a mãe dividem o seu tempo com a criança e todos conseguem trabalhar e ter sua individualidade”, ressalta a psicóloga Bianca Amorim.

Marina, mãe de Theo, conta que já se prepara para o fim da licença-maternidade. “Para mim, voltar a trabalhar é importante. Apesar de amar ficar com o bebê, eu sinto que preciso exercer minha profissão. Não parei muito para pensar sobre o que as pessoas estão achando disso, mas tento ser firme em relação a isso, porque sinto que vai fazer bem para mim”, conta.

Camila Guimarães e seu filho Vicente/Arquivo pessoal
Afinal, o que é ser uma boa mãe?

Se a mãe perfeita não existe, afinal, o que define uma boa mãe? É claro que não há uma resposta simples, mas ser a mãe que o seu filho precisa já é um bom parâmetro para uma maternidade mais leve e feliz.

“Acho que o fundamental é o amor. Procuro ser uma boa mãe instintivamente, sem saber o que é ser uma boa mãe ou não, mas acredito que seja proporcionar tudo de melhor para o meu filho”, reflete Camila, mãe de Vicente.

“Ser uma boa mãe é ser a mãe possível! Querer, sim, ser melhor a cada dia; reconhecer as fraquezas; buscar mais conhecimentos sobre a arte de educar; mas, principalmente, olhar para dentro de si e se conectar com a sua própria maternidade, aquela que não é nem a melhor e nem a pior, mas que é só sua”, finaliza a psicóloga perinatal Bianca.

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Fontes:

Bianca Amorim, psicóloga perinatal, life coach e idealizadora do projeto ‘Renascendo após a maternidade’ (CRP 03/12830)

Damiana Angrimani, psicóloga e educadora perinatal com atendimento focado em mulheres, gestantes e mães (CRP 06/113326)

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