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Já fez seu exame da tireoide durante a gravidez e o pós-parto?

Em um estudo da USP, 57% das grávidas desenvolveram hipotireoidismo na gestação, daí a importância do diagnóstico
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A tireoide é uma glândula responsável pela produção de dois hormônios – a triiodotironina (T3) e a tiroxina (T4) – essenciais para o metabolismo e as funções vitais do organismo e se tornam ainda mais importantes na gestação, já que a gestante precisa de uma dosagem diária de 250 microgramas de iodo, micronutriente necessário para a síntese desses hormônios, 100 a mais do que em uma mulher que não está grávida.

Por conta disso, algumas mulheres acabam sofrendo de hipotireoidismo (queda na produção do hormônio), mas muitas vezes não apresentam sintomas. A maioria tem apenas alterações discretas nos níveis dos hormônios, mas isto já é capaz de provocar abortos, parto prematuro, problemas de crescimento e de desenvolvimento das estruturas cerebrais do feto. Por isso, o exame é essencial no primeiro trimestre da gestação.

Para saber mais sobre ao assunto, conversamos com a endocrinologista Maria Fernanda Barca, com títulos de especialização e doutorado em Endocrinologia Clínica.

Um estudo da USP de Ribeirão Preto (SP) apontou que 57% das mulheres grávidas desenvolvem o hipotireoidismo. Esse número é absurdamente alto.

Sim, mas isso depende de cada região e do país. A Suíça, por exemplo, é um país onde a população precisa constantemente de reposição de iodo. De maneira geral, independente da região, cerca de 10% a 20% das grávidas apresentam hipotireoidismo (queda na produção do hormônio) ou hipertireoidismo (excesso de produção do hormônio) ou ainda Tireoidite de Hashimoto (forma crônica da doença), que precisam ser tratados antes do nascimento do bebê.

A grávida tem mais risco de apresentar um problema na tireoide?

Sim, porque a glândula precisa fabricar até 50% mais hormônio para dar conta tanto da mãe quanto do bebê. Na maioria das vezes, essa alteração fica dentro da normalidade. Quando há uma disfunção e o funcionamento fica mais lento, ocorre o hipotireoidismo, mais comum na gestação. Mas também pode ocorrer o hipertireoidismo, quando o metabolismo fica mais rápido, acelerando os batimentos cardíacos da mãe e do feto, sendo mais difícil de ser tratado. E, por fim, pode causar tireoidite de Hashimoto, que aumenta o risco de aborto espontâneo em até três vezes.

Por que o diagnóstico é difícil?

Porque os sintomas são facilmente confundidos com alterações próprias da gestação e os obstetras não dão a devida atenção ao problema. A alteração na tireoide poderia ser facilmente detectada no pré-natal por meio de um exame de sangue simples, que pode ser feito em qualquer posto de saúde.

Qual seria esse exame?

São dois exames de sangue para detectar os níveis adequados dos hormônios da tireoide no corpo (TSH e T4 livre) e devem ser feitos ainda no primeiro trimestre para que não ocorra danos no desenvolvimento cerebral do feto. Todas as grávidas devem fazer, mas se torna ainda mais relevante para gestantes com mais de 30 anos, com histórico familiar de hipotireoidismo, diabéticas ou com doenças autoimunes. Também é indicado para mulheres que passaram por abortos, partos prematuros e com dificuldade de engravidar.

Quais são as consequências para o bebê?

A falta de iodo pode restringir o crescimento e afetar o QI do bebê, ou seja ele pode apresentar dificuldade de aprendizado e de memória ao longo da infância. Diversos estudos já comprovaram que a falta de iodo é causa de baixo QI em crianças. No Japão e na China, onde há muita cobrança em relação ao desempenho cognitivo das crianças, os médicos já fazem rotineiramente o teste de sangue na grávida para detectar eventuais problemas na tireoide.

E quais são as consequências durante a gravidez?

O problema aumenta em três vezes o risco de aborto, que pode ser repetitivo, e outras sofrem de descolamento de placenta, hipertensão gestacional e anemia. O hipotireoidismo também está associado ao aumento do risco de hemorragia pós-parto.

Quais os sintomas do hipotireoidismo e do hipertireoidismo?

O hipotireoidismo é mais comum na gravidez e causa cansaço extremo, indisposição, sono em excesso e ganho de peso excessivo, queda de cabelo e ressecamento na pele e no cabelo. Ou seja, sintomas comuns ao longo dos nove meses. Em relação ao hipertireoidismo os sintomas são perda de peso, tremores, sudorese intensa, suor, taquicardia e inquietação exagerada que leva à insônia.

E qual seria o tratamento para as alterações na tireoide?

Um endocrinologista deve receitar suplementos alimentares com iodo em sua composição até o período de lactação, além de reposição de hormônios. Já no hipertireoidismo, o obstetra e o endocrinologista devem avaliar o risco-benefício do remédio. No entanto, o maior risco é não tratar o problema.

E após o parto, o problema da tireoide continua?

Sim, é preciso fazer um controle nos próximos 12 meses após o parto. Até mesmo mulheres que não apresentaram nenhuma variação no funcionamento da tireoide durante a gestação podem manifestar quadros em que há um excesso ou lentidão da glândula. Minha tese de doutorado foi sobre este tema e o trabalho foi publicado na revista Clinical Endocrinology.

O que este trabalho mostrou?

A pesquisa que conduzi mostrou que 60% dos casos de tireoidite pós-parto regrediram e outros 40% evoluíram para uma forma crônica da doença, a tireoidite de Hashimoto. Como alguns dos sintomas de hipotireoidismo lembram a depressão – desânimo e cansaço, entre outros -, muitas mulheres são diagnosticadas como depressivas, quando, na realidade, deveriam estar sendo tratadas para a tireoide.


Fonte: Maria Fernanda de Castella Simões Barca Tavares de Oliveira, endocrinologista, Doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (CRM 47146)

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