A gestação é um evento complexo, com mudanças de diversos tipos e variados graus de intensidade.

Por isso, é sempre uma experiência repleta de sentimentos que mobilizam conteúdos inconscientes da mãe e obrigam a construir representações.

A relação da mãe com o futuro bebê começa no período pré-natal (às vezes, na fase anterior à fecundação), e se dá, basicamente, por meio das expectativas que a gestante tem sobre o bebê que virá e do tipo de interação, em qualidade e intensidade, que estabelece com o feto enquanto ele ainda está no útero.

Com isto em vista, a participação em um Grupo de gestantes pode ajudar as futuras mães a lidarem com o fato de que muitas de suas imaginações e expectativas, tanto as agradáveis quanto as desagradáveis, demasiadas vezes são enormemente semelhantes às de outras gestantes, o que ajuda a suavizar duros sentimentos de solidão ou de maior diferenciação pessoal.

Pois o processo de constituição interna da maternidade tem início muito antes da concepção, a partir das primeiras relações sociais e identificações da mulher, passando pela atividade lúdica infantil, a adolescência, o desejo de ter um filho, as representações decorrentes disso tudo e a gravidez propriamente dita.

Contribuem também para estas dinâmicas variados aspectos geracionais e culturais, associados ao que se espera de uma menina ou mulher, tanto dentro da família como em seu grupo social imediato e na sociedade.

A gestação, que de fato é a etapa fundadora no processo de constituição da maternidade, é momento de importantes reestruturações na vida da mulher e nos papéis pessoais, familiares e sociais que ela exerce.
Grávida recebendo carinho de mulher mais velha
Durante esse período, ela deverá passar da condição de filha para a de também mãe (se for o primeiro filho) e reviver experiências anteriores (no caso de não ser o primeiro filho), além de ter de reajustar o relacionamento conjugal (quando existe), a situação socioeconômica, as relações familiares mais amplas e as atividades profissionais e sociais, num mundo em que as mulheres são cada vez mais participantes da produção econômica.

Neste breve espaço de tempo são experimentadas mudanças de diversas ordens que interferem profundamente em seu mundo intrapsíquico e relacional, determinando uma experiência única e intensa que influencia tanto a dinâmica psicoemocional como as relações pessoais e sociais da mulher, já que a pessoa humana é sempre o resultado do meio cultural em que vive: ela é herdeira de um processo cumulativo que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas inúmeras gerações que a antecederam e é influenciada também, diretamente, pela sociedade que a cerca e seus diferentes produtos e dinâmicas culturais.

Tais componentes sociais e pessoais costumam ganhar evidência em um Grupo de gestantes, auxiliando todas as participantes a construírem a própria posição frente ao que está sendo vivido pessoalmente por elas, levando em consideração as variadas dimensões reciprocamente influentes.

Por tudo isto, a gestação é um dos principais momentos da construção da imagem da maternidade pela gestante, sem esquecer que antes disto ela nasceu menina, foi filha e brincou de ser mãe, o que contribuiu para a constituição da maternidade, que, para além da dinâmica biológica, é fortemente influenciada por determinantes psíquicos e pelas representações sociais.

Ocorre que, segundo o conceito de “representações sociais”, o indivíduo é produto da sociedade, sempre dinâmica e fluida, enquanto os conhecimentos sobre os indivíduos só são possíveis com a descrição da experiência humana tal como ela é vivida e definida por seus próprios atores.

Então, ao mesmo tempo em que ela é protagonista na construção das representações sociais, entre elas a da maternidade, no caso de mulheres gestantes e puérperas, a pessoa humana tem nestas mesmas representações sociais um básico elemento orientador de seus comportamentos.

Mulher de costas falando com 3 grávidas sorridentesOu seja: a análise da representação social adotada busca dar conta de como a sociedade transforma um conhecimento em representação, e como esta, por sua vez, transforma a sociedade e, por extensão, as pessoas que nela vivem.

Neste sentido, é preciso recordar que nas sociedades contemporâneas atenuou-se em muito a possibilidade de viver em comunidade e de o coletivo receber representações ou significações para os mais determinantes momentos da vida, suportando e dando orientação ao que se poderia chamar “rituais de passagem”, e no tocante a gestação isto pode ser auxiliado de modo significativo pela participação em um Grupo de gestantes.

Porque poucas coisas, das que ocorrem a uma gestante, são tão peculiares assim, quer pela herança biológica e psicológica de certa forma partilhada entre todas as gestantes, quer pelo tipo de condicionamento cultural que se abate de forma análoga sobre a maioria delas.

Como as expectativas e imaginações da mãe em relação ao bebê têm origem em seu mundo interno, invariavelmente elas derivam de suas vivências pessoais e ou familiares passadas e de suas atuais necessidades conscientes e inconscientes associadas ao bebê que está em gestação.

Então, conhecendo o que outras gestantes imaginam e como se sentem quanto a estas fantasias, uma gestante tende a se sentir menos desigual e isto a fortalece internamente.
Na maior parte das gestantes, as fantasias costumam ser mais frequentes e intensas no 2º trimestre da gestação, quando o feto, movimentando-se no útero, anuncia para valer a sua existência. Depois do 7º mês, o volume e a intensidade dessas expectativas tendem a diminuir, preparando, com isso, o lugar do bebê real.

As expectativas costumam se elaborar sobre o bebê imaginário que cada gestante desenvolve, seja o primeiro filho ou não, e envolvem principalmente o gênero do bebê, o nome, a maneira como ele se movimenta no útero e as características psicológicas e de comportamento que a gestante atribui a ele.

O gênero é um dos principais e mais comuns aspectos para se conhecer sobre o bebê antes do parto, e por isso carrega muitos simbolismos. Muitas gestantes desejam conhecer o gênero do seu futuro bebê ainda durante a gestação, principalmente as que já têm filhos ou que estão vivendo uma gravidez não planejada, enquanto outras preferem não sabê-lo, muitas vezes para não correrem o risco de terem suas expectativas contrariadas (sem que isto seja mencionado).

040O nome também é compreendido como um parâmetro de antecipação do bebê e é a partir também desta escolha que o bebê se torna mais real e assume mais firmemente o seu lugar enquanto um ser autônomo.

A percepção materna dos movimentos fetais é considerada um bastante importante marco na gravidez, pois faz com que a mãe sinta o feto como mais real e personificado, e incrementa, por isso, as expectativas referentes a ele.

É também a partir da maneira como são percebidos estes movimentos que as gestantes atribuem características de temperamento ao futuro bebê, além de sentirem que a interação entre ambos passou a ser recíproca, com o que podem até compreender certas “mensagens” do bebê.

O bebê anuncia, então, sua existência no interior dos pais muito antes do nascimento e os projetos e expectativas que envolvem a sua chegada preparam o lugar para acolhê-lo.

Os aspectos concernentes a estas expectativas são diversos e importantes de ser compreendidos, pois são palavras que preparam o espaço do futuro bebê, e, portanto, participam da relação após o nascimento, podendo então ser mais bem discutidos entre os pais e entre a gestante e outras grávidas que participem do Grupo de gestantes.

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