Poucas gestações são tão desafiadoras quanto as que ocorrem durante o período da adolescência.

A gravidez em tenra idade não deve ser vista com naturalidade, dada a fragilidade emocional de seus pais e a falta de maturidade biológica da mãe para gestar uma criança.

Mãe e pai adolescentes ainda não possuem condições suficientes para lidar com tão complexa situação e, não raro, enfrentam dificuldades que sequer supunham existir. São múltiplos os aspectos médicos e socioeconômicos envolvidos que tornam a precocidade na formação de uma nova família uma gravidez de alto risco.

Dados históricos demonstram que no ano de 2000 23,4% dos partos no Brasil haviam sido de adolescentes entre 10 e 19 anos. Em 2013 este percentual reduziu-se para 19,3%, mas, mesmo assim, foram quase 500.000 nascimentos. A imaturidade dos pais, as complicações físicas para a mãe e o bebê e, na maior parte das vezes, a ausência de uma decisão de gestação consciente, criam um descompasso no desenvolvimento da sociedade e nas oportunidades de formação de uma família bem estruturada.

Ficar grávida tão cedo pode, por outro lado, sugerir violência sexual, ato criminoso que afeta, significativamente, o futuro dessas meninas e seus filhos. Tristes exemplos das consequências e do impacto emocional causado à adolescente é o sentimento de culpa, o silêncio, a perpetuação da pobreza e, em casos extremos, o abandono do filho pelo pai ou mesmo, nos casos extremos, pela própria mãe. É preciso compreender melhor a gravidez de alto risco em adolescentes, em razão da complexidade dos fatores que a cercam e suas consequências.

Entendendo a adolescência031

Há diferença nos critérios etários que definem a adolescência. Para a Organização Mundial de Saúde, é a faixa entre 10 e 19 anos; para o Estatuto da Criança e do Adolescente, varia dos 12 aos 18 anos completos; e para a Sociedade Brasileira de Pediatria, vai dos 10 aos 20 anos.

Adolescência é uma fase da vida marcada por um conjunto de transformações que estabelecem padrões de comportamento e sonhos que permearão por toda a vida, nos níveis pessoais, familiares e sociais.

Segundo Anna Freud, filha de Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, é uma fase marcada por intensos conflitos pessoais e grupais, em função de todas as redefinições que estão em curso. Por isso, ela diz que “considero normal que um adolescente se comporte durante um longo período de maneira incoerente e imprevisível; que se oponha a seus impulsos e os aceite; que consiga evitá-los e se sinta submetido a eles; que ame seus pais e os odeie; que se rebele contra eles e que dependa deles; que se sinta envergonhado de reconhecer sua mãe frente aos demais e que, inesperadamente, deseja de todo coração falar com ela; que busque a imitação e a identificação com outros, enquanto busque sem cessar sua própria identidade; que seja idealista, amante da arte, generoso e desinteressado como nunca voltará a sê-lo, porém será também o contrário, egocêntrico, egoísta e calculador. Estas flutuações entre extremos opostos seriam altamente anormais em outra etapa da vida. Na minha opinião, é necessário dar-lhe tempo e meios para que elabore as suas próprias soluções. Talvez sejam seus pais que devam receber ajuda e orientação, pois existem poucas situações na vida que sejam mais difíceis de enfrentar que a de um filho ou filha adolescente que luta por liberar-se”.

Os adolescentes buscam desenvolver identidade em grupo porque necessitam de estima e aceitação, razão pela qual, nos grupos, adotam semelhança no modo de vestir e de falar, dando origem aos grupos e às “tribos”. A necessidade de identidade grupal entra em conflito com a necessidade de uma identidade pessoal, e pode levar o adolescente a se afastar dos pais e parentes, por mais que goste deles e até os admire, e a intensificar o relacionamento com outros adolescentes, pois eles compartilham desafios semelhantes.

Ao mesmo tempo, a popularidade com o gênero oposto é muito importante durante a adolescência. Neste complexo cenário, a busca de construir a própria identidade gera um problema comum à maioria dos adolescentes: lidar com as mudanças corporais e com os conflitos internos no campo da sexualidade.

032A sexualidade e a gestação na adolescência

A sexualidade é um elemento importante para a análise da dinâmica do adolescente. As mudanças físicas que caracterizam a adolescência incluem alterações hormonais que costumam provocar estados de excitação vividos como incontroláveis.

Nessa longa fase também ocorre a consolidação do tipo de atração sexual vivida pelo indivíduo. E hoje em dia os relacionamentos sexuais começam cada vez mais cedo, em função de pressões culturais que levam as crianças a terem de ser adolescentes precoces e, os adolescentes, a terem de agir como adultos precoces, mesmo se não estão preparados psicologicamente para tanto.

Em consequência disto tudo, vivendo de um lado a excitação interna e, de outro, as pressões externas do grupo e da sociedade, não raramente a adolescente engravida de modo inesperado, passando a viver conflitos que se somam a todos os outros, os que são típicos da adolescência.

Os motivos que levam adolescentes a engravidar são variados. O início da atividade sexual é cada vez mais precoce, já que a relação sexual passou a fazer parte do namoro. Algumas até desejam engravidar como parte do processo de busca da identidade, mas a desinformação é uma das principais causas, por mais que hoje em dia pareça que todo mundo sabe de tudo pela Internet e pelas redes sociais.

Assim, não poucas vezes a adolescente engravida sem ao menos saber o que está acontecendo com seu corpo, só encarando o que virou problema quando já está grávida, isto para nem dizer que, para muitas delas, o aborto é apenas mais um método de contracepção, o que é um terrível engano.

Mesmo nos casos em que a gravidez da adolescente se dá em projetos familiares organizadores da vida e compartilhados pelo futuro pai do bebê e as famílias, a gestação é sempre preocupante, pelos desafios que costuma apresentar:
– Maior risco de pré-eclâmpsia e eclâmpsia;
– Maior probabilidade de infecção urinária ou vaginal;
– Mais chance de haver parto prematuro;
– Gestação de bebê com baixo peso ou subnutrido;
– Complicações no parto, inclusive as que podem levar ao parto cirúrgico;
– Aumento do risco de depressão pós-parto;
– Aumento da probabilidade de rejeitar o bebê, com prejuízo à autoimagem e à saúde emocional do bebê.

Além disso, caso a gestante pese menos de 45 quilos e tenha altura inferior a 1,60 metro, além de poder gerar um bebê com menor peso do que o correspondente para a idade gestacional, pode ter um quadril pequeno e inadequado para o trabalho de parto natural, ampliando a necessidade de realização de parto cirúrgico, ou cesáreo.

Acompanhamento mais regular033

O risco de gerar um bebê com baixo peso é fácil de compreender: a adolescente ainda está em crescimento e, ao engravidar, surge um enorme risco biológico para seu corpo.

Este risco está principalmente ligado à questão nutricional, pois existem dois corpos crescendo num mesmo momento e competindo pelos mesmos nutrientes. Como resultado, ela pode até ganhar mais peso, mas transfere menos peso e menos nutrientes para o bebê.

O ideal é que a mulher engravide após já ter ao menos 5 anos de idade ginecológica, a qual tem início com a primeira menstruação e, em geral, quando a velocidade de crescimento corporal começa a desacelerar: quanto menor a idade, maior o risco para ela e o bebê.

Para identificar a idade ginecológica da gestante é preciso saber a diferença entre a idade da primeira menstruação e a idade em que a adolescente engravidou. Assim, se uma adolescente engravida aos 16 anos e menstruou pela primeira vez aos 12, ela tem 4 anos de idade ginecológica. Outra adolescente que tenha engravidado aos 17, mas menstruou aos 15, tem apenas 2 anos de idade ginecológica, o que pode trazer mais risco para a saúde dela e do bebê.

Como mais de 60% das gestantes brasileiras integram as classes sociais menos favorecidas, e isto é mais comum ainda no caso das grávidas adolescentes, é muito importante que os postos públicos de saúde que as atendem no pré-natal estejam atentos a certos aspectos:
– O número de consultas de pré-natal deve ser orientado pela necessidade da adolescente, pois muitas vezes elas precisam de mais consultas e de mais atenção, para que possam compartilhar seus medos, dúvidas e angústias;
– Atrasos para consulta não devem ser motivos para cancelamento do atendimento;
– Muitas vezes a adolescente comparece no posto de saúde em dias e/ou horários distintos daqueles oferecidos para o atendimento; caso não se possa oferecer uma consulta, é importante que algum tipo de atendimento e conversa seja realizado;
– Caso a adolescente esteja acompanhada de amigas e seu desejo seja que elas(s) participem(m) da consulta, isso deve ser, sempre que possível, aceito;
– O serviço deve ser sempre amigável e acolhedor, pois o contrário afastará as adolescentes da procura pelo serviço público de saúde;
– A presença do pai do bebê deve ser sempre incentivada;
– Atendimentos e atividades em grupo são fundamentais para que as adolescentes possam trocar experiências e se sentir mais seguras nessa fase;
– Programas de saúde do adolescente e saúde da criança devem estar articulados para acompanhar essa mãe muito jovem.

Outra estratégia muito importante que deve ser incentivada é o planejamento familiar, que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), pode gerar inúmeros benefícios para o enfrentamento da gravidez indesejada: aumentar a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e de famílias; potencial de reduzir em 32% as mortes maternas, 10% de recém-nascidos e da mortalidade infantil; e de diminuir em 71% o número de outras gravidezes não desejadas.


Revisado por: Marcus Cavalheiro, Médico Ginecologista e Mestre em Obstetrícia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp) (CRM/SP 30.077)