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Grávidos: homens também podem sentir os sintomas da gravidez

A condição é chamada de Síndrome de Couvade e afeta cerca de 54% dos pais, indicam estudos
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Enjoo, ansiedade, ganho de peso e desejos. O conjunto de sintomas, característicos da gestação, não é exclusividade das mulheres. Por mais curioso que pareça, os grávidos, homens cujas parceiras estão esperando um filho, podem sentir também todos esses sintomas. Trata-se da Síndrome de Couvade, que não é uma doença, e sim uma condição na qual o homem, prestes a se tornar pai, apresenta algo semelhante a uma gravidez psicológica.

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Pesquisas indicam que a metade da população de futuros pais (54%) é acometida pela Síndrome. “Muitos homens começam a apresentar sintomas exatamente idênticos aos da mulher durante o pré-natal. Isso não é nenhum absurdo e não é algo novo, e sim uma coisa que a gente observa com frequência”, diz o obstetra Alberto D’Áuria, do Hospital e Maternidade Santa Joana.

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Entre os sintomas estão ganho de peso, enjoo, cansaço, insônia, desejos, dores na barriga e até mesmo depressão. Estudos mostram que o sexo masculino sofre alterações hormonais durante a gravidez da companheira, como aumento da prolactina (hormônio responsável pela descida do leite, entre outras funções) e redução da testosterona.

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O nome dado a esse conjunto de sintomas remete à tradição de tribos primitivas, na qual o homem assumia algumas tarefas tradicionalmente delegadas às mulheres quando sua parceira engravidava. Esse ritual foi estudado em 1865 pelo antropólogo E.B. Tylor, que o batizou de Couvade.

Causas

A forte ligação entre o homem e sua parceira, somada à ansiedade pela chegada do bebê e à participação efetiva do pai na gravidez, algo muito mais comum hoje em dia do que antigamente, são os principais fatores para fazer com que um homem ‘engravide’ junto com sua companheira.

“Temos observado que o homem, em algumas famílias, tem se apropriado do seu papel de pai/cuidador de uma maneira mais consciente e mais plena. Essa compreensão estimulou essa integração do homem às novas dinâmicas e demandas familiares, e esse fator pode promover uma identificação com a gestação, gerando sintomas similares aos da parceira”, afirma a psicóloga perinatal Rosângele Monteiro, e terapeuta sistêmica de famílias.

“Isso é resultado de uma transformação social importante, que fez com que os pais participassem mais da gravidez. Os homens passaram a acompanhar as consultas e o pré-natal, participam dos cursos de gestante e fazem tudo o que podem para acompanhar o processo”, avalia o obstetra Alberto.

Reação feminina

A reação da mulher frente ao parceiro pode variar. Algumas se sentem apoiadas e até acham que a síndrome contribui para o vínculo entre o casal, uma vez que o homem entende e compartilha as transformações.
“Algumas se sentem acolhidas e outras se sentem ameaçadas na legitimidade do seu momento”, completa a psicóloga. As que enxergam a situação de forma negativa, entendem que o conjunto de sintomas do parceiro seja, na verdade, uma tentativa de chamar a sua atenção e a dos parentes e amigos.

“Alguns homens procuram chamar mais atenção, porque eles percebem que no ambiente social eles acabam sendo secundários, já que a parceira é quase sempre alvo de toda a atenção das pessoas”, confirma Alberto D’Áuria.

Perfil do homem

A Síndrome de Couvade pode atingir todos os futuros pais, porém, homens com um determinado perfil podem ter mais chances de serem acometidos do que outros.

“Os homens que desenvolvem mais a Síndrome de Couvade costumam ser filho único ou primogênito, que acompanhou a gravidez do irmãozinho e se sentiu abandonado, por assim dizer. Quase sempre tem uma história por trás disso, em experiências vividas durante a infância”, defende o obstetra.

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Pai pela segunda vez, Bruno Nascimento Sé Penha, de 29 anos, é um dos muitos pais ‘grávidos’, e se encaixa no perfil citado pelo médico. Ele é filho único e foi criado por sua mãe e cinco tias.

“Desde a gestação do nosso primeiro filho, o foco passou completamente a ser a minha esposa. Sentia ali uma questão não de rejeição, mas de predileção da família por ela”, admite. Tanto na atual gravidez quanto na primeira, Bruno sentiu na pele alguns dos sintomas da gravidez de sua esposa Josiane, ganhando o mesmo peso e tendo os desejos pelas mesmas comidas.

“Às vezes, eu desejava um determinado bolo, e quando chegava em casa, tinha um na mesa. Tínhamos essa sintonia muito forte, e isso culminou no ganho de peso. Na 1ª gravidez, ela engordou 15 kg e eu engordei a mesma quantidade”, relembra.

Precisa de tratamento?

Precisar, não precisa, mas o ideal é que os sintomas do homem sejam acompanhados pelo médico, de preferência pelo próprio obstetra da parceira, durante as consultas do pré-natal. Um tratamento mais detalhado só é recomendado em casos mais extremos, como quando o homem entra numa depressão.

“Não é necessário tratamento específico, a não ser que seja algo que atrapalhe a rotina do casal. Cabe ao obstetra orientar o casal de forma clara”, avalia o obstetra Alberto D’Áuria.

“É importante o casal acolher e elaborar as questões emocionais relacionadas a esse quadro. Em alguns casos, é importante ter um acompanhamento psicológico profissional”, finaliza a psicóloga perinatal Rosângele.

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Fontes: Alberto D’Áuria, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana (CRM/SP 35062)

Rosângele Monteiro, psicóloga perinatal e terapeuta sistêmica de famílias, Também é fundadora da Ninho Materno – Psicologia Perinatal e Parental (CRM/SP 59888)

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