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Doar o sangue do cordão umbilical, descartado após o parto, pode salvar vidas

Rico em células-tronco, o material pode ser usado no tratamento da leucemia e outras doenças
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Momentos após a gestante dar à luz, os médicos cortam o cordão umbilical, cujo destino, na maioria das vezes, acaba sendo o lixo da maternidade. Porém, esse valioso material pode ajudar a salvar uma vida. Isso porque o sangue de cordão umbilical é rico em células-tronco hematopoiéticas, as mesmas existentes na medula óssea e responsáveis pela geração do sangue, sendo uma alternativa ao transplante de medula.

Por isso, essas células, que em geral são jogadas fora, podem salvar a vida de pacientes com doenças genéticas e autoimunes, como leucemia, anemia grave e linfoma, pois podem ser usadas no tratamento de pessoas que necessitam de um transplante de medula óssea e não têm um doador compatível.

A maior vantagem da doação do sangue de cordão umbilical é o fato de não ser preciso retirar a medula óssea do doador, além de não haver necessidade da compatibilidade genética total entre o doador e o paciente – como acontece no transplante de medula óssea –, podendo haver uma compatibilidade apenas parcial.

Rede brasileira

Para ajudar esses pacientes, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) criou, em 2004, a Rede BrasilCord, uma rede de bancos públicos para coletar e armazenar material sanguíneo de cordões umbilicais doados por gestantes e mantida pelo Ministério da Saúde. Atualmente, a rede conta com 13 unidades espalhadas pelo Brasil e possui aproximadamente 21 mil unidades do material armazenados.

“Cada unidade de bancos públicos possui convênio com pelo menos duas maternidades públicas de sua região, e as gestantes que terão seus bebês nesses hospitais, podem se voluntariar para doar o material, desde que atendam alguns requisitos, como ter feito pelo menos duas consultas de pré-natal, ter entre 18 e 36 anos, não possuir nenhuma doença hematológica ou neoplásica – como anemia e câncer, respectivamente – e estar com, no mínimo, 35 semanas de gestação no momento da coleta”, explica o médico hematologista Luis Fernando Bouzas, coordenador do REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), órgão coordenado pelo INCA.

Caso a gestante queira fazer a doação, mas não dará à luz numa maternidade credenciada, ainda é possível se voluntariar entrando em contato com o banco mais próximo, que avaliará a possibilidade de realizar a coleta na maternidade em questão.

As maternidades credenciadas pela BrasilCord possuem uma equipe treinada para fazer a triagem das gestantes que desejam ser voluntárias e realizar a coleta do material após o parto. O sangue do cordão – cerca de 120 a 150mls – é coletado pela equipe após a placenta ser expelida.

“Antes da coagulação do sangue, o material é colocado numa bolsa especial com anticoagulante. Em seguida, é levado ao laboratório e separado para o congelamento”, explica o hematologista Luis Fernando.

Quando o material doado chega aos laboratórios do INCA, é feita uma série de procedimentos para avaliar a qualidade do sangue, verificar a quantidade de células-tronco e excluir a possibilidade do sangue estar contaminado com alguma doença. Antes de o material ser liberado para transplante, a mãe doadora deve fazer exames em um período de dois a seis meses após o parto, para garantir que realmente não há risco do sangue estar contaminado. Depois de todo esse processo, que pode levar de três a seis meses após o parto, o sangue de cordão umbilical fica disponível para transplante.

A doação é gratuita e não há nenhum risco nem para a mãe e nem para o bebê, já que o sangue é retirado do cordão umbilical, uma estrutura normalmente descartada após o parto pela maternidade.

É importante ressaltar que, após a doação, o material ficará disponível para qualquer paciente que necessite do transplante. “A mãe abre mão desse material para ser doado a qualquer pessoa que um dia venha a precisar do transplante. Ela não pode, no futuro, requisitar o material para uso do seu próprio filho, por exemplo”, explica o médico Luis Fernando.

O material coletado pode permanecer congelado por tempo indeterminado. No INCA, há amostras congeladas há mais de 20 anos, desde quando os benefícios e possibilidades das células-tronco começaram a ser confirmados por estudos, nos anos 1990.

Bancos privados

Há gestantes que guardam o sangue do cordão umbilical em bancos privados com a intenção de curar uma doença do filho no futuro. Porém, é importante saber que as chances do sangue ser transplantado para o seu próprio dono são pequenas.

No Brasil, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), existem 20 bancos privados de sangue de cordão umbilical, cuja proposta é coletar e congelar o material para o uso próprio ou de algum parente no futuro. No período de 2003 a 2010, apenas três pessoas fizeram uso do próprio sangue, segundo registros. Isso porque, em casos de doenças como a leucemia, as células-tronco do paciente já possuem uma predisposição à doença, tornando necessário o uso do sangue de outras pessoas para transplante, de acordo com os médicos.

Estima-se que existam mais de 110 mil unidades armazenadas nesse tipo de banco, segundo os Relatórios de Avaliação dos Dados de Produção dos Bancos de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário, publicados anualmente pela Anvisa. O serviço cobra um valor para a coleta do sangue, que custa, em média, R$ 6 mil, e uma anuidade para manter o material congelado, que pode ir de R$ 600 a 1 mil.

Em 2013, a Anvisa publicou uma cartilha digital em seu site com orientações aos pais sobre o uso do sangue do cordão umbilical. A intenção é proporcionar um material didático que forneça informações acerca dos tipos de bancos de sangue de cordão umbilical existentes no Brasil, assim como trazer fatos relevantes para que os pais possam tomar uma decisão consciente entre doar as células-tronco presentes no sangue de cordão para um banco público ou armazená-las em um banco privado para uso próprio no futuro.

A Anvisa também chama a atenção para a promessa de possibilidade do uso do sangue de cordão umbilical para tratamento em medicina regenerativa feita por alguns bancos privados. Apesar de haver muitos estudos sobre o uso das células-tronco com esse fim em curso, ainda não há conclusão científica nesse sentido.

“Ainda não é possível afirmar que o tratamento em medicina regenerativa utilizando as células do próprio cordão umbilical será bem sucedido e, futuramente, o mais indicado. Desta forma, estes estudos podem ser igualmente promissores quanto ao uso de outros tipos de células para tratamentos terapêuticos, no futuro.”

Portanto, é importante ressaltar que os pais que optem por deixar o material em banco privado saibam que ainda não há garantia, pelo menos por enquanto, de que as células-tronco possam ser usadas para esse tipo de tratamento.


Fontes:

Luis Fernando Bouzas, médico hematologista, coordenador do REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), órgão coordenado pelo INCA (CRM/RJ 52-33778-9)

Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)

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